14/01/2018 16:46:37 - Atualizado em 14/01/2018 16:49:36 por VerÔnica mattos


Da fala para o silêncio e do silêncio para a fala

 

Freud já havia detectado o poder da fala e consecutivamente fez dela ferramenta determinante no tratamento dos sintomas neuróticos. A psicanálise aponta uma relação fundamental entre fala e inconsciente. Isto significa dizer que, ao falarmos, dizemos mais do que pensamos dizer, mostrando a existência de conteúdos latentes sob os conteúdos manifestos do falar. Por mais que o inconsciente procure se valer da linguagem na busca de sentido, sempre haverá um resto, um sem sentido, algo da ordem do irrespondível, um não dito.

 As palavras têm uma valia distinta quando as pensamos do que quando as enunciamos. A palavra falada tem um efeito retrocessivo, que pode interferir sobre acontecimentos psíquicos de quem fala. E o silêncio intensifica essa resposta a uma ação anterior. O analista observa argumentos que lutam entre si, osque querem se externar e outros, que querem ficar em silêncio. O não-dito, o lugar da palavra que não foi verbalizada, mas está ali para ser desvendada.Como destacou Lacan, “o silêncio toma todo o seu valor de silêncio, não é simplesmente negativo, mas vale como além da palavra”. Acredito que a linguagem do silêncio pode ser escrita na subversão que seu movimento causa.

O silêncio nos confidencia sentidos enraizados, pois o que legitimamente importa nos discursos, não se apresenta neles. Há, portanto, uma ausência presente no silêncio, e por trás dele “sempre se implícita uma fala, o que equivale a admitir que por trás de um enunciado oral se escondem “frases do silêncio”Canizal(2005).

O silêncio se apresenta sobre os atos sociais comunicativos, dando existência a um elemento tão importante quanto qualquer dos outros códigos de que nos servimos para falar.O silêncio pode apresentar diferentes questões:formar parte da pontuação de uma frase quando se termina de comentar algo ou quando se pede a palavra para comunicar alguma coisa.Todos nós temos um jeito particular de escutar o mundo. Sempre que olhamos para algo ou alguém, nossa realidade psíquica atua na nossa percepção. O silêncio nos fala e pode dizer muito mais que palavras.
Freud sempre se perguntou, “Em que fontes o poeta se embriaga para criar suas obras?”.

                                                           

Luiz Roberto Duncan
Psicanalista